A lenta e dolorosa morte do PalmOS
Publicado em 19/09/2008 – 14:00por Carlos Morimoto
O PalmOS já foi o sistema operacional mais usado em palmtops. Com o início da era dos smartphones, a Palm lançou a linha Treo, baseada no PalmOS 5.4 (Garnet), que acabou sendo o último major release dentro da plataforma. Devido a um conjunto de problemas internos, o desenvolvimento do PalmOS está praticamente parado desde 2004, o que torna o futuro do sistema bastante incerto. A Palm continua lançando novos modelos baseados em versões levemente atualizadas do Garnet, mas os 4 anos sem grandes atualizações pesam sobre o sistema, fazendo com que ele seja deficiente em diversas áreas. Tanta coisa não funciona que seria mais fácil enumerar o que ainda não está quebrado.
Um bom exemplo é o suporte a Java. A plataforma Palm nunca teve uma implementação do Java completamente funcional, mas entre 2004 e o início de 2008 a Palm distribuiu uma versão portada do IBM WebSphere, que funcionava de forma precária, rodando apenas alguns aplicativos mais simples. Mesmo aplicativos populares, como o Opera Mini e o Gmail Mobile produziam erros que travavam os aparelhos, obrigando o dono a fazer um soft-reset e esperar mais de um minuto até que o aparelho reiniciasse e sintonizasse a rede, para só então poder voltar a trabalhar.
Os problemas de instabilidade eram crônicos no Treo 650, onde o Java era simplesmente inutilizável e menos severos (embora ainda presentes) no Treo 680 e no Palm Centro. Entretanto, visando cortar custos, a Palm decidiu não renovar a licença e encerrar a distribuição em janeiro de 2008:

A boa notícia é que os usuários passaram a não mais perder tempo com uma implementação do Java que não funciona como deveria, a má é que a plataforma deixou de ser compatível com o Java, deixando de rodar aplicativos que tomamos como certos, como o Opera Mini e o Gmail Mobile. O lento e limitado Blazer passou a ser a única opção de navegador e as únicas formas de acessar sua conta do Gmail passaram a ser a interface web, e o acesso via POP/IMAP usando o VersaMail.
Uma última esperança é este tópico do Java.Net, onde voluntários para um porte do phoneME para o Garnet estão sendo recrutados: http://forums.java.net/jive/thread.jspa?messageID=283248
Apesar de tudo, os Palms ainda rodam os aplicativos nativos do PalmOS, uma reserva nutritiva acumulada na época em que ainda se desenvolvia para a plataforma.
Antigamente, Palm era sinônimo de organizador pessoal e a plataforma era a preferida pelos desenvolvedores. Entretanto, a plataforma começou a definhar com o crescimento do Symbian, do Windows Mobile e do Java. O PalmOS continuou sendo usado apenas nos aparelhos da própria Palm, que representavam apenas uma pequena fatia das vendas de smartphones.
Em 2003 a Palm foi dividida em duas, a Palm, que ficaria responsável pelo hardware e a Palm Source, que ficaria responsável pelo desenvolvimento do sistema. A divisão acabou sendo fatal, pois as duas empresas não conseguiram coordenar os esforços e acabaram por se tornar concorrentes.
A Palm Source foi comprada pela Access (uma empresa especializada em soluções móveis) em 2005, que rapidamente anunciou que o Garnet seria substituído pelo Access, uma nova plataforma, baseada em Linux. Com isso, os poucos desenvolvedores que ainda desenvolviam para a plataforma paralisaram as atividades, esperando pelo novo sistema. O Access foi então sucessivamente adiado, para 2006, depois 2007, depois 2008 e agora para 2009, o que fez com que mesmo os mais insistentes migrassem para outras plataformas.
Nesse tempo, muita coisa mudou. O Windows Mobile cresceu em aceitação, o Symbian se tornou open-source e o Google anunciou o Android, outro sistema aberto, que também é baseado em Linux. Mesmo que o Access realmente veja a luz do dia em 2009, a procura por ele será mínima.
Em outras palavras, o PalmOS está morto e é improvável que deixe descendentes. Tanto os usuários quanto os desenvolvedores já migraram ou estão migrando para outras plataformas. Uma frase que definiria a atual situação seria: "o último que sair apague as luzes".
A Palm (a divisão de hardware), por sua vez, ficou limitada a licenciar o Palm OS Garnet, sem ter como fazer grandes modificações ou atualizar o sistema. Isso explica por que o Treo 650 (lançado em 2004), o Treo 680 (lançado em 2006) e o Palm Centro (lançado em 2007) são virtualmente idênticos com relação ao software. A Palm se esforçou em recauchutar e remendar o sistema, instalando alguns aplicativos e módulos adicionais (como a versão nativa do Google Maps incluída no Centro), mas sem conseguir ir muito longe.

Com isso, o Palm Centro acaba sendo uma opção muito ruim de smartphone. Novos usuários se deparam com um aparelho caro (US$ 399 nos EUA e R$ 1099 no Brasil), pesado e limitado, que não é sequer capaz de rodar aplicativos em Java, enquanto usuários antigos da plataforma Palm, que dependem de alguns aplicativos específicos podem simplesmente manter seu aparelho atual, já que o Centro não oferece grandes vantagens em relação aos modelos anteriores.
A Palm, ciente da falência da plataforma, mas sem muitas escolhas, passou a fabricar aparelhos baseados no Windows Mobile, como o Treo 700w, o Treo 750w e o recém anunciado Treo Pro. Com isso, ela acabou se tornando apenas mais uma empresa que produz smartphones baseados na plataforma da Microsoft, se esforçando para se manter competitiva frente a concorrentes muito maiores, como a HTC e a Samsung. Este é um final triste (porém merecido) para uma empresa que já foi uma das maiores e mais inovadoras do setor.

Pesquisando na web, você encontrará referências ao "Nova", que seria o sucessor do Garnet. Assim como o Access, o Nova é baseado em Linux, mas tem sido desenvolvido de forma independente pela Palm. Considerando que a Palm é uma empresa especializada em hardware (lembre-se, a divisão de software foi comprada pela Access), a idéia de que conseguirão desenvolver um sistema operacional de sucesso por conta própria parece improvável. Como era de se esperar, as únicas notícias concretas sobre o Nova são os sucessivos adiamentos. Em 2006 ele poi prometido para 2007, em 2007 foi prometido para 2008 e em 2008 foi prometido para 2009, sem que nunca fossem publicados detalhes sobre o sistema. Ou seja, assim como o Cobalt, é provável que ele seja mais um que nunca verá a luz do dia.
Com a falência generalizada da plataforma, sobram os usuários que ainda dependem dos milhares de aplicativos desenvolvidos para o PalmOS.
Se você é um deles, tem basicamente duas opções. A primeira é simplesmente manter seu aparelho atual, enquanto busca alternativas. A Palm ainda deve continuar fabricando aparelhos baseados no PalmOS por algum tempo e sempre existe a opção de comprar outro aparelho usado caso o seu pare de funcionar.
Outra solução é rodar os aplicativos sobre um aparelho com o Windows Mobile ou o Symbian usando o StyleTap, disponível (US$ 49, com trial de 14 dias) no https://styletap.com/:

Como todo emulador, ele possui um overhead relativamente alto em termos de desempenho, mas isso não é um problema no caso de aplicativos desenvolvidos para os Palms antigos, que utilizavam processadores de 40 MHz ou menos.
Uma limitação é que a maioria dos aparelhos com o Windows Mobile ou Symbian utilizam telas QVGA, de 320×240, enquanto os Palms utilizavam telas de 160×160 ou 320×320. Com isso, o emulador é obrigado a escalonar a imagem, o que prejudica a legibilidade.
O StyleTap funciona melhor nos PocketPCs, que utilizam telas sensíveis ao toque, já que os aplicativos do PalmOS são todos baseados no uso da stylus. Nas versões para o Windows Mobile Smartphone Edition e para os aparelhos Nokia S60 você precisa controlar um cursor virtual usando o direcional, o que é imprático.
Enquanto escrevo (setembro de 2008) o StyleTap para Symbian ainda está em versão beta e você precisa se cadastrar para baixar a versão de demonstração. Existe também uma versão para o iPhone, também em estágio de desenvolvimento.



14 respostas para “A lenta e dolorosa morte do PalmOS”
Antes de morrer a Palm bem que poderia liberar o código do BeOS que ela adquiriu quando comprou a Be Inc e assim ajudar aos desenvolvedores do Haiku
Fran, segue reportagem sobre Palm OS
Ricardo
Bom, realmente, só escolhe PalmOS hoje quem depende da plataforma. Não é só uma plataforma desatualizada, é também altamente bugada. Um exemplo absurdo é o fato de o HotSync do Palm Centro dar tela azul no Windows Vista com processadores dual core, como o Core 2 Duo. No site da Palm não fala nada, você que precisa correr atrás e baixar um programa que limita o uso de processadores usados por uma programa.
Li a matéria acima, que me respondeu muitas questões. Tenho um Tungsten E que uso para aplicativos médicos (Epocrates e outros)e agenda. Pretendia migrar para um SmartFone, mas vejo que é melhor ficar como está por enquanto, certo?
To feliz, escapei da maior fria…
Tem mais e que ir a falência, quando una idiotas tomão decisões tolas como comprar BeosOS e assinar atestado de burrice.
Ja devia-o ter migrado para o OS livre a muito tempo. O pior de tudo e dar razão para o Bill ou Jobs que são mais competentes em enxergar o mercado e suas necessidades.
Tambem sinto falta das aplicacoes Palm … se pelo menos quem desenvolve hoje para Symbiam e Pocket PC adoptasse um interface grafico simples e funcional como as aplicacoes Palm em vez de complicar …
O PALMOS está parecendo o JASON de sexta feira 13, que você mata-mata-mata e ele continua vivo para atormentar os programadores e usuários desinformados.
Muito legal este artigo, estava pensando em comprar um palm (era meu sonho de criança..rs) mas depois de entender melhor como anda a perspectiva do OS da palm desisti da idéia.
Infelizmente. A plataforma Palm me acompanhou durante muitos e muitos anos, sempre eficiente, nunca me deixando na mão. A verdade é que é simples, rápida, fácil de usar e dificilmente falha, se você usar como usuário comum. Ainda tenho um Tungsten X, é muito show, em tudo, principalmente as funções multimídea. Só que ficar sem um browser é muito complicado, apesar de ter Wi-Fi. É exatamente como você falou: o Java nunca foi seu forte e atualmente posso dizer que já precisei dele algumas vezes, sem sucesso. Uma empresa que tinha tudo pra dominar o mercado ou pelo menos se manter grande. Mas mercado é assim: sobrevive quem tem visão de futuro e estratégia. A Palm se esqueceu disso.
Eu acabei de ter que fazer a dolorosa opção de comprar um palm centro (!!).
Claro que eu já sabia q a palm é um paciente terminal, mas meu T5 quebrou e infelizmente eu ainda sou um refém dos aplicativos da palm. Uso alguns aplicativos médicos que não existem ainda em outras plataformas, e comprar um smartphone caro para emular um OS falido não me pareceu smart. hehehe
Ainda bem que consegui um centro por cerca de 150,00 reais na vivo e vou usando até um outro OS oferecer meus programinhas médicos. O duro é comprar um smartphone e já ir ter que escolhendo outro. :S
O Palm Treo Pro parece ser bacana, com preço competitivo pode vender alguns milhares, mas é sabido que ter que entrar em guerra de preço assim costuma levar a empresa para o buraco. Exemplo: logo após o Palm Centro vender mais de 1 milhão de unidades a palm anunciou prejuízo no trimestre.
Alias é interessante a palm vender tanto smartphone durante sua morte, o número de orfãos só está crescendo. Apesar que os novo usuários provavelmente vão conseguir migrar de OS com muito mais facilidade.
Uma curiosidade é que a Palm contratou recentemente um dos CEOs responsável pela volta por cima da Apple, mas acho difícil a palm conseguir algo além agonizar por mais tempo.
É pessoal… infelizmente fui ludibriado pelo operador de uma Empresa de telefone quando quis adquirir um Palm (que era o meu sonho), pois teria tudo que eu precisaria para o meu dia a dia. Ao questionar com o operador ele me informava que este Palm (Centro)era excelente e atenderia a tudo que eu quisesse, recebimento email, meus aplicativos em excel e word entre outros e que eu estaria com um equipamento "moderno". pareçe que me dei mal, pois levei na operadora e o técnico não consegui instalar a plataforma java para este aparelho… estou vendo que me dei mal, mesmo com o desconto de 50% e dividido em 1 vezes na conta… que vantagem… agora vou te que me aguentar por no minimo 01 ano. É uma pena, mas "pimenta nos olhos dos outros é refresco"… me tornei um cemitério, adquirindo um defunto…rsss
Já fui proprietário de dois Palms (Z22 e Tungsten E2) e hoje possuo um HP iPAQ hx4700, baseado no Windows Mobile 5. Mesmo os dois handhelds da Palm tendo processadores fracos (o Z22 tinha um Samsung 266MHz), eles eram muito mais rápidos que o meu iPAQ (que tem um dos chips mais rápidos disponíveis, o Intel XScale PXA270 624MHz). Posso com certeza atribuir isso ao software: o Palm OS é muito eficiente e o Windows Mobile é realmente a própria versão móvel do Windows, com direito até à leseira…
A intenção da Palm lançar o Centro é um Smartfone para "iniciantes" que não tem familiaridade com Smartphones. Tenho um Centro,para o que eu uso está muito bom, mas, acho, que a Palm deveria é fabricar o Centro com Windows Mobile, ou Symbian, ou até o Web OS (se tiver hardware suficiente para rodar o Web OS. Como a Palm já decretou o fim do Palm OS, seria bom pra ela ter smartfones "lights" agora, com preços mais acessíveis.
Boa noite,
Adorei a materia, sou um usuario palm desde seu nascimento, e ja tive todos os palms ja inventados e demais acessórios, como modem, cartão wifi teclado etc, até o tungsten T3 (que uso até hoje, junto com meu treo 650) e de fato, sofro muito por isso, pois não tem aplicativos simples como o opera mini que deveria rodar, etc.
hoje trocaria tudo por um windows mobile, mas o que me salva ainda no palm são alguns programas de terceiros como o Agendus, documents to go 12 e o kk 12c, sem eles meu palm ja tinha sido enterrado. mas com muita dor no coração